Jaqueline Machado | Feliz aniversário, Grande Sertão!
- Lenon Quoos

- 22 de jun.
- 2 min de leitura
Uma reflexão sobre a nossa terceira margem da vida ensinada por João Guimarães Rosa e uma homenagem ao mês do público LGBTQIA+
"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde. Um descanso na loucura."
Esta frase lindíssima pertence ao livro que, em 2026, completa 70 anos: Grande Sertão: Veredas, do gênio João Guimarães Rosa, que também celebraria aniversário no próximo dia 27, se ainda estivesse entre nós.
Grande Sertão arrebatou minha alma quando conheci a história de um jagunço aposentado das jagunçagens, narrando sua vida a um forasteiro.
Ao longo da travessia, Riobaldo transforma-se em filósofo. Questiona tudo. Principalmente as manifestações do bem e do mal, a mistura do bom e do ruim presente em todas as coisas.

Entre um parágrafo e outro, deixa pérolas inesquecíveis:
"Sempre pensei por mim mesmo. Sou forro. Diverjo de todo mundo. Não sei de quase nada, mas desconfio de muita coisa."
E também:
"Viver é muito perigoso."
Mas o tema central da obra não são as batalhas políticas nem as disputas por terras. É o maior conflito interno da humanidade: a travessia da terceira margem do rio.
E essa margem não fala do passado nem do futuro. Fala do presente. Do mistério da vida que, para Riobaldo, ganhou forma em um amor proibido por Diadorim.
O amor entre dois jagunços não podia acontecer. Diziam que era sentimento mandado pelo demo.
Riobaldo era corajoso nas guerras. Chegou até a firmar um pacto com o capiroto para vencer um inimigo. Mas mostrava-se frágil diante dos próprios preconceitos. Diadorim, por sua vez, era delicado e valente. E lhe ofereceu o sinal mais importante:
"É preciso ter coragem."
Coragem para quê?
Para atravessar a margem escura do rio da vida. Para conhecer o diferente. Para romper paradigmas sem medo do julgamento alheio.
Mas Riobaldo insistia:
"Viver é muito perigoso..."
João Guimarães Rosa foi como Diadorim: extremamente corajoso ao abordar o amor homossexual entre dois amigos em uma época em que esse tema sequer possuía espaço no debate público.
No desfecho da narrativa, Riobaldo descobre que seu grande amor, morto em batalha, era uma mulher que se vestira de homem para lutar em honra ao pai. Seu nome era Maria Deodorina.
Ele quis se entregar ao sentimento.
Mas já não havia tempo.
Abraçou Diadorim com as asas de todos os pássaros.
O amor, porém, não pôde ser vivido. Faltou coragem para atravessar a terceira margem do seu próprio rio.
E tu?
Já atravessou a tua?
Jaqueline Machado.
















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