Jaqueline Machado | O sagrado ato de sentir
- Lenon Quoos

- 15 de jun.
- 2 min de leitura
Você já parou para refletir sobre o significado da palavra sentimento?
Sentir, seja lá o que for, é a pulsação da vida que nos conduz à consciência de que estamos vivos. É através desse dom sagrado que experimentamos cada instante da nossa existência. O sentimento nos permite reconhecer a fome, a sede, o sono, os sonhos e o despertar. O despertar para aquilo que nos encanta e também para aquilo que nos desafia.
O primeiro amigo, o primeiro amor, a primeira conquista, a primeira despedida. Há experiências que o coração registra para sempre. Mesmo aquele primeiro afago recebido após o nascimento, no calor do colo materno, ainda que esquecido pela memória consciente, permanece guardado em algum lugar da alma. Porque existem lembranças que não habitam a razão; habitam a emoção.
E é justamente por meio das emoções que os sentimentos transbordam e dão significado a cada novo respirar.

A felicidade atrai saúde, beleza, esperança e leveza. Mas viver é muito mais do que colecionar alegrias. Viver é experimentar todas as emoções e compreender que tudo possui sua dualidade. Em meio às flores, inevitavelmente, existem os espinhos.
A dor raramente é bem-vinda. Quase nunca é desejada. Ainda assim, ela possui uma capacidade singular de nos ensinar sobre a condição humana. Quando estamos felizes, dificilmente paramos para refletir sobre a natureza do sentir. Já nos momentos de tristeza, a reflexão costuma surgir espontaneamente. A dor nos obriga a olhar para dentro.
Sentir é o sagrado ato de estar vivo. É a certeza de que ainda somos capazes de nos emocionar diante de um abraço, de uma despedida, de uma paisagem, de uma música ou de uma simples lembrança.
Muitas pessoas passam a vida refugiadas na frieza e na razão. E não há problema algum em recorrer à racionalidade quando ela é necessária. O problema surge quando ela ocupa todos os espaços e silencia a voz da alma. Em excesso, a razão pode transformar a existência em algo mecânico, previsível e sem encantamento.
Talvez, em tempos de tanta pressa e tanta distância emocional, seja importante permitir-se sentir um pouco mais. Sentir o amor e a saudade. Sentir a alegria e a decepção. Sentir a esperança e a dor. Reconhecer as próprias feridas sem vergonha delas. Abraçar as emoções como parte da jornada humana.
Há uma poesia silenciosa em tudo aquilo que nos atravessa e nos transforma. Basta olhar com mais atenção para perceber que a vida fala conosco através dos sentimentos.
E, por falar em poesia, lembro de uma frase do poeta brasileiro Manoel de Barros que sempre me acompanha:
“Não gosto de dar confiança para a razão: ela diminui a poesia.”
Talvez porque tudo aquilo que perde a capacidade de sentir também perca, aos poucos, a capacidade de viver.
E tudo o que diminui a poesia morre cedo demais.
Jaqueline Machado.















Comentários