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Jaqueline Machado | Treze tiros, quando bastava apenas um

há 6 minutos
2 min de leitura

Justiça ou maldade disfarçada? Quero muito entender de justiça, mas no mundo em que vivo, isso parece quase impossível.


Hoje eu estava refletindo sobre a violência na nossa sociedade. Foi então que me lembrei do caso do bandido Mineirinho, daquele conto da Clarice Lispector. Mineirinho existiu de fato. Era bandido. Seu ato precisava ser contido pela polícia. Era o que tinha que ser feito. E foi. Até aí, tudo bem. Não fosse a maneira como tudo aconteceu. Trecho do texto:  “Mineirinho foi morto com treze tiros quando bastava um só. O décimo terceiro tiro me assassinou — porque eu sou o outro."


Se um tiro bastava, por que o policial continuou atirando? Por justiça? Não. Foi para cometer o seu crime particular. A atitude de vingança e de ódio transformou o que deveria ser justo num ato de justiça estupidificada, como a própria autora descreveu. Esse conto não é apologia à violência. Pelo contrário. É um repúdio ao crime e ao ser criminoso que se esconde no labirinto sombrio da entranha humana, sedento de ira. Claro que a justiça tinha que ser feita.


Mas o que houve ali foi um assassino interrompendo a vida de outro assassino. Não menos cruel, mas mais evidente aos olhos de todos. O conto faz o ser humano pensar: até onde o homem é honesto quando executa um ato de honestidade? Até onde vai a sua verdade e a sua compaixão na hora de decidir o que é certo ou errado? Quantas vezes o ser humano se flagra irritado como o "Mineirinho", dono da razão, querendo resolver tudo no grito? Querendo transformar esse grito num ato de poder, quando, na verdade, gritar só o deixa mais frágil do que quando se encontra em estado de confusão.


A humanidade não pode esquecer: todo ser humano, com seu acerto e seu erro, é semelhante ao outro, parido da mesma natureza. A injustiça tem várias caras e a raça humana é pequena demais para agir com tanta supremacia sobre o seu próximo.


É preciso vencer a escuridão e se entregar à luz criadora. A luz que deu origem à vida. Quando isso acontecer — se acontecer —, a igualdade social se fará presente e não existirá mais bandido, porque todo mundo vai estar unificado pelo laço poderoso da igualdade e da compaixão. Todo mundo é irmão, parente da mesma célula, da mesma corrente sanguínea. Por isso, a justiça precisa ser justa. Não estupidificada. Porque toda estupidez é sinal de ignorância. E a ignorância, por si só, é uma assassina. Uma assassina em série que primeiro corrompe e depois mata a dignidade de toda raça de gente.


Gostaria muito de aprender mais sobre justiça, mas está difícil saber quem é o bom ou o ruim da história...




Jaqueline Machado 

 
 
 

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