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Bruno Müller | A homenagem que chegou depois

A homenagem proposta à Transportes Nossa Senhora das Graças pelos seus 72 anos de atuação no transporte coletivo urbano de Cachoeira do Sul é justa. A empresa faz parte da história do Município e, especialmente enquanto esteve sob a administração de seu fundador, prestou relevantes serviços à comunidade.


Gerações de trabalhadores, estudantes e famílias foram transportadas pela TNSG. Seus motoristas, cobradores, mecânicos e demais funcionários ajudaram a manter a cidade em movimento. Essa trajetória merece respeito e reconhecimento.


O que causa estranheza não é a homenagem, mas o momento escolhido para apresentá-la.


Por que somente agora, justamente depois que a empresa foi afastada da operação urbana em razão da precariedade do serviço? Onde estava essa iniciativa quando ainda havia tempo para agir, ajudar a empresa e evitar a deterioração do transporte coletivo?


A precariedade não surgiu com a atual Administração. Durante anos, o Ministério Público apontou graves deficiências na prestação do serviço e cobrou providências do poder público. A frota envelheceu, a capacidade operacional diminuiu e a população passou a conviver com um serviço cada vez mais insuficiente.


Nesse período, o partido ao qual pertence a proponente da homenagem esteve no comando do Município e teve oportunidades concretas para enfrentar o problema. Poderia ter fiscalizado com maior rigor, exigido providências, reorganizado o sistema ou conduzido a necessária licitação para uma concessão definitiva.


Não fez.


Mesmo quando integrantes do mesmo grupo político estiveram à frente da Administração Municipal, nenhuma solução efetiva foi construída. O problema continuou se agravando e acabou transferido ao governo seguinte.


Por isso, a homenagem proposta agora provoca uma pergunta inevitável: se havia tanta consideração pela TNSG, por que esse empenho não apareceu quando a empresa começou a perder capacidade operacional?


Por que não houve mobilização quando os problemas se agravaram? Por que não foram apresentadas soluções durante os governos do próprio partido? Por que o reconhecimento somente surgiu depois que outra gestão tomou a difícil decisão de substituir a operadora?


É muito mais fácil homenagear depois do que agir quando se tem responsabilidade.


Também chama atenção outro ponto. Homenageia-se a empresa afastada, mas não se vê iniciativa semelhante para reconhecer os servidores que trabalharam na fiscalização, na apuração, no procedimento competitivo e na transição do serviço. Tampouco há homenagem para quem assumiu os riscos políticos e jurídicos de enfrentar um problema que se arrastava havia décadas.


Por que será?


Talvez porque homenagear a empresa seja politicamente mais confortável do que reconhecer a omissão de quem teve a oportunidade de ajudá-la. Talvez porque valorizar aqueles que enfrentaram o problema exigisse admitir que outros, quando governaram, preferiram não agir.


A homenagem não deve ser negada. A história da TNSG, de seu fundador e de seus trabalhadores merece o reconhecimento da comunidade.


Mas respeitar a história exige contá-la por inteiro.


A empresa prestou relevantes serviços, mas perdeu capacidade operacional após seu fundador infelizmente partir. A precariedade tornou-se pública, notória e reiteradamente apontada pelo Ministério Público. Governos passaram sem apresentar uma solução efetiva. O partido que hoje propõe a homenagem esteve no poder e também permaneceu inerte.


Portanto, que a TNSG seja homenageada pelo que representou para Cachoeira do Sul.


Mas que essa homenagem não seja utilizada para inverter responsabilidades, esconder omissões ou ser aproveitada como conveniência para transformar a empresa em vítima política depois de anos de precariedade.


A homenagem pode ser justa.


A memória seletiva, não. Bruno Müller

 
 
 

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