Bruno Müller | Agora Vai
- Da Redação
- há 3 minutos
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Há problemas que atravessam governos porque são difíceis. Outros atravessam décadas porque, além de difíceis, exigem algo que nem sempre aparece nos discursos: disposição para enfrentar interesses, romper acomodações e assumir riscos.
O transporte coletivo urbano de Cachoeira do Sul reúne um pouco de tudo isso.
Durante décadas, a cidade conviveu com uma operação precária, sem a necessária licitação para uma concessão pública definitiva. Passaram administrações, prefeitos, secretários, discursos, promessas e soluções anunciadas. O problema, disciplinado e paciente, ficou.
E foi envelhecendo junto com o sistema.
A frota perdeu qualidade. O serviço se deteriorou. As gratuidades cresceram sem a correspondente fonte de custeio. A capacidade de investimento da prestadora foi sendo comprometida. Somaram-se dificuldades societárias e empresariais que, em algum momento, deixaram de ser assunto privado para se transformar em problema público.
Convém esclarecer algo, especialmente nestes tempos em que qualquer decisão administrativa logo ganha roteiro de conspiração política: o debate não deve ser reduzido a perseguição, revanchismo ou disputa pessoal.
Empresas têm ciclos. Estruturas societárias enfrentam crises. A capacidade de investimento pode desaparecer. Isso acontece.
O que não pode acontecer é o interesse público permanecer indefinidamente sentado na parada, esperando um ônibus que talvez nunca chegue.
Cachoeira do Sul precisa de novos ares no transporte coletivo. Precisa de investimento, segurança, qualidade e capacidade operacional.
E esse diagnóstico não nasceu ontem, tampouco depende da opinião deste colunista.
Em manifestação judicial, o próprio Ministério Público registrou ser “fato público e notório” na cidade a “gritante falta de qualidade e insegurança” na execução do serviço. Foi além ao afirmar que, “há décadas”, é entregue serviço “absolutamente insuficiente e desqualificado”, inclusive com exposição da coletividade a risco iminente.
Ao tratar das apurações promovidas pelo Município, o Ministério Público utilizou palavras ainda mais duras, classificando a realidade como uma execução “precária, ineficiente, insuficiente e mesmo desqualificada” de um serviço público essencial.
A expressão mais importante talvez seja justamente esta: há décadas. Décadas.
Tempo suficiente para muitas promessas, muitos discursos e muitas oportunidades de fazer alguma coisa.
Algumas das vozes que hoje bradam das tribunas legislativas contra as decisões tomadas não são exatamente recém-chegadas à vida pública. Já tiveram tempo, espaço e oportunidade para enfrentar o mesmo problema. Não enfrentaram.
Talvez por falta de capacidade. Talvez por falta de coragem. Talvez porque seja sempre mais confortável fiscalizar a coragem alheia do que explicar a própria inércia.
É uma das curiosidades da política: certas vozes ganham impressionante potência quando a decisão difícil já foi tomada por outros.
E decisões dessa envergadura, convém lembrar, exigem luz, responsabilidade e disposição para assumir consequências. Não costumam ecoar de porões.
E então surge a pergunta desconfortável: se o problema é tão antigo, por que nunca foi efetivamente resolvido?
Talvez porque enfrentar seja mais caro do que explicar.
É mais fácil administrar a precariedade do que romper com ela. É mais confortável empurrar decisões para o próximo governo. É politicamente mais seguro produzir uma boa justificativa para não fazer do que assumir o risco de tentar.
Desta vez, porém, algo se moveu.
Houve fiscalização, apuração e enfrentamento de uma situação que já não permitia indiferença. Os órgãos de controle acompanharam o tema. Estruturou-se uma solução emergencial, por meio de procedimento competitivo, para garantir a continuidade do serviço e permitir a transição para um novo modelo.
E o pregão emergencial teve empresa vencedora.
Ao mesmo tempo, avança a construção da licitação definitiva, aquela que Cachoeira do Sul espera há décadas, para que o transporte coletivo possa finalmente ser estruturado sobre bases regulares, transparentes e capazes de atrair investimento.
Daí então que aparece o deboche.
“Agora vai.”
A frase veio carregada daquela ironia tão conhecida de quem já decidiu, de antemão, que nada pode dar certo. Uma espécie de pessimismo preventivo: se fracassar, comemora-se a previsão; se funcionar, muda-se de assunto.
Pois bem. Agora vai.
Não porque problemas históricos desapareçam por decreto. Não porque não existam riscos jurídicos, econômicos e operacionais. Não porque o caminho seja fácil.
Quem promete facilidade diante de uma questão acumulada por décadas ou desconhece a realidade ou está vendendo alguma coisa.
Mas há uma diferença importante neste momento: o problema deixou de ser apenas administrado.
Depois de tantos anos em que a precariedade foi tratada quase como parte inevitável da paisagem da cidade, rompeu-se a lógica de aceitar que tudo continue como sempre esteve.
A crítica é legítima. A fiscalização é necessária. O contraditório melhora decisões públicas. E ninguém, muito menos quem exerce função pública, deve almejar blindagem ao questionamento.
Outra coisa, bem diferente, é torcer pelo fracasso apenas para preservar uma narrativa.
Se a mudança fracassar, não perde apenas um governo. Perde Cachoeira do Sul.
Por isso, diante de um problema que atravessou décadas, a cidade precisa menos de torcida pela trave e mais de compromisso com o gol.
O procedimento emergencial avançou. Há empresa vencedora. A licitação definitiva deve ocorrer. Pela primeira vez em muito tempo, existe um caminho concreto para romper com uma precariedade que parecia direito adquirido da cidade.
Agora vai? Vai.
Não porque um governo mereça aplausos antecipados.
Não porque o sucesso esteja garantido.
Não porque alguém tenha descoberto uma fórmula mágica depois de décadas.
Simplesmente vai porque, desta vez, o problema foi colocado em movimento.
E, sobretudo, agora vai porque se quer que vá.
E, convenhamos, para uma cidade que esperou tanto tempo no ponto, isso já não é pouca coisa.
Bruno Müller














