Cientista de Cachoeira do Sul conquista prêmio internacional e vira símbolo de orgulho para a cidade
- Lenon Quoos

- há 15 minutos
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A sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Cachoeira do Sul, realizada na última segunda-feira, 27 de abril, foi marcada por um momento de forte emoção e reconhecimento público. A vereadora Ana Paula Melo (Progressistas) utilizou a tribuna para homenagear o cientista cachoeirense Vinícius da Costa Silva, de 34 anos, que vem se destacando internacionalmente na área da entomologia e recentemente recebeu o Lacordaire Prize, uma das mais importantes distinções científicas voltadas ao estudo de besouros.
Em um discurso carregado de orgulho e identidade local, a parlamentar ressaltou o sentimento coletivo da comunidade diante da conquista. “Eu tenho orgulho de ser cachoeirense. E talvez seja até um certo bairrismo, mas é daquele que a gente carrega no peito com amor. Porque quando um dos nossos ganha o mundo, a gente sente como se fosse um pouco nosso também”, declarou.
Ana Paula destacou ainda que a trajetória de Vinícius ultrapassa fronteiras, mas mantém raízes firmes na cidade. “Hoje quero celebrar o Vinícius, meu amigo de infância, que recebeu um importante prêmio internacional pelo seu trabalho na ciência. Um cachoeirense que está na África, mas que nunca deixa de levar junto a sua origem”, afirmou.
A vereadora também fez questão de reconhecer a importância da família na construção dessa história de sucesso. “A base importa. Meu reconhecimento aos seus pais, Vicente e Marlete, que ajudaram a construir essa trajetória”, completou, reforçando sua crença no potencial da cidade e de sua gente.
Infância no interior e caminhos inesperados
Natural do bairro Santo Antônio, em Cachoeira do Sul, Vinícius teve uma infância típica do interior, marcada por liberdade, atividades ao ar livre e uma rotina intensa. Apaixonado por futebol, ele relembra que praticamente “respirava” o esporte, além de andar a cavalo e gastar energia em diversas atividades.
“Eu sempre fui muito agitado, e o futebol me ajudava a lidar com isso”, conta. A ciência, curiosamente, não fazia parte dos seus planos naquele momento. Durante muitos anos, o sonho era seguir carreira no esporte.
A virada veio apenas no momento de decidir a profissão. Influenciado por interesses na área de investigação criminal — alimentados por séries de televisão e conversas familiares —, decidiu inicialmente buscar algo ligado à criminalística. Foi então que, por sugestão da tia, optou pelo curso de Ciências Biológicas, escolha que mudaria definitivamente sua trajetória.
Formação acadêmica de excelência
A partir dessa decisão, Vinícius iniciou uma caminhada marcada por dedicação e oportunidades. Graduou-se em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde já demonstrava interesse pela área de entomologia forense.
Ainda nos primeiros dias de universidade, tomou uma atitude que considera decisiva: procurou um professor e pediu a oportunidade de aprender e trabalhar com ele. Esse movimento abriu portas para o aprofundamento na área e definiu o rumo de sua carreira científica.
Seguiu para o mestrado em Biodiversidade Animal pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, posteriormente, para o doutorado em Entomologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Durante o doutorado, teve experiências internacionais em instituições de referência mundial, como o Muséum National d'Histoire Naturelle, em Paris, e o Natural History Museum, em Londres.
Essas vivências permitiram contato direto com pesquisadores renomados e ampliaram sua visão sobre a ciência em escala global.
A descoberta dos besouros e a construção de uma linha de pesquisa
O interesse pelos besouros da família Trogidae surgiu ainda na graduação, durante o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Na época, Vinícius realizava experimentos com carcaças de animais para estudar a fauna associada à decomposição — uma base importante para aplicações na entomologia forense.
Durante esses estudos, chamou sua atenção a grande quantidade de besouros dessa família e, principalmente, a dificuldade de identificação das espécies. Ao buscar referências, percebeu que a principal literatura disponível era antiga e de difícil aplicação prática.
Foi nesse momento que surgiu a ideia de revisar e atualizar o conhecimento sobre o grupo — proposta que viria a se tornar o eixo central de seu doutorado.
Pesquisa com impacto científico e ambiental
O trabalho desenvolvido por Vinícius vai além da curiosidade científica. Sua pesquisa busca compreender a evolução e a dispersão dos besouros na América do Sul, analisando padrões históricos que ajudam a explicar a distribuição atual das espécies.
Esse tipo de estudo tem implicações diretas na conservação ambiental, auxiliando na identificação de áreas prioritárias para proteção e no entendimento da biodiversidade do continente.
Paralelamente, sua atuação na entomologia forense contribui para investigações criminais. A partir da análise de insetos encontrados em cenas de crime, é possível estimar o tempo de morte e até levantar hipóteses sobre as circunstâncias do óbito.
Reconhecimento internacional e o Lacordaire Prize
O destaque internacional veio com a publicação de seu trabalho no Zoological Journal of the Linnean Society, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo na área de zoologia.
Seguindo o conselho de seu orientador — de sempre “mirar alto” —, Vinícius submeteu seu estudo a um periódico de grande impacto e teve o reconhecimento da comunidade científica.
A conquista culminou com o recebimento do Lacordaire Prize, prêmio que simboliza excelência na pesquisa com besouros. Ele se tornou apenas o quinto brasileiro a alcançar essa distinção.
“Receber o prêmio me deu a sensação de estar no caminho certo. Foi o reconhecimento de todo o trabalho, inclusive em períodos difíceis como a pandemia”, afirma.
A notícia que veio de um safári
O momento da descoberta do prêmio também ficou marcado de forma inusitada. Vinícius estava em um safári no Kruger National Park, na África do Sul, sem acesso à internet. Ao retornar, encontrou diversas mensagens de parabéns.
“No começo, achei estranho, porque meu aniversário é só em março. Quando abri a mensagem da minha ex-orientadora, entendi tudo. Fiquei sentado na cama pensando: ‘caramba, ganhei’”, relembra.
Vida na África e rotina intensa
Desde 2023, o cientista vive em Pretória, onde atua como professor e pesquisador na Universidade de Pretoria. Sua rotina é intensa, envolvendo orientação de alunos, desenvolvimento de pesquisas e participação em projetos acadêmicos e governamentais.
Além disso, ele está envolvido em iniciativas com a polícia sul-africana, contribuindo para a capacitação de agentes no uso de evidências entomológicas em investigações criminais.
Laços que permanecem
Apesar da distância, Vinícius mantém uma forte conexão com Cachoeira do Sul. Ele visita a cidade anualmente e mantém contato frequente com a família, destacando a importância desse vínculo, especialmente por viver em um país com cultura diferente.
“Recebo mensagem de bom dia da minha mãe todos os dias. Esse contato é fundamental”, conta.
Para ele, ser cachoeirense é parte essencial de sua identidade. “É a cidade que me formou e me ensinou valores que levarei para sempre”, afirma.
Inspiração e mensagem para o futuro
Com uma carreira consolidada e reconhecimento internacional, Vinícius já pensa no legado que deseja deixar. Seu objetivo é inspirar novas gerações e mostrar que é possível sair do interior e conquistar espaço no mundo.
“Levem os estudos a sério, sejam curiosos e questionem tudo. O conhecimento é algo que ninguém pode tirar de você”, aconselha.
E para quem duvida que sonhos grandes possam nascer em cidades pequenas, ele deixa uma mensagem clara: “O mundo pode ser grande, mas quando nossos sonhos são maiores, ele se torna pequeno.”



















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