top of page

Jaqueline Machado | Olhos de Ressaca

há 2 dias
2 min de leitura

Você já viu um homem se acabar de ciúme?

 

Não estou falando daquele ciuminho bobo que aquece o amor. Eu falo daquele ciúme que cega, que atormenta o sujeito até ele não saber mais o que é real e o que é imaginação. Pois é desse ciúme que essa história trata.


Tinha um menino, o Bentinho. Moleque de quatorze anos, mimado, morava lá em Matacavalos. Sua mãe, Dona Glória, queria porque queria que ele fosse padre. Mas ele não queria saber de batina. Só pensava em ficar no muro trocando ideias com a vizinha.


A vizinha era Capitu. Menina esperta, linda, cheia de luz. Os dois se gostavam desde pequenos.


Certa vez, ela sentou e se mirou no espelho de sua penteadeira. O rapazinho se aproximou, pegou o cabelo dela todo e começou a alisar.


Ficou enrolando, fazendo e desfazendo de propósito só para ficar mais tempo ali. Até que completou duas tranças. A moça jogou a cabeça para trás, ficaram se olhando nos olhos, se atraíram e trocaram o primeiro delicado beijo.


Só que Capitu tinha um olhar diferente. Um sujeito lá da casa dele, o José Dias, que era um puxa-saco da família, falou uma frase que deixou o menino com a pulga atrás da orelha: "Olhos de cigana oblíqua e dissimulada...”

O Bentinho entendeu que eram olhos de ressaca. Um olhar que puxa, que nem onda. Porque Capitu era sereia. Sereia fora da água.

O tempo passou. Por imposição da mãe, Bentinho foi para o seminário.


Com o tempo, voltou, porque não tinha jeito para padre. Casou com Capitu, tiveram um filho. Daí em diante, os sonhos começaram a virar pesadelo.


Um dia, do nada, ele olhou para o filho e achou que o menino parecia com o seu melhor amigo, Escobar. Pronto. Foi o bastante. O ciúme entrou como uma enchente casa adentro.


Ele não quis saber da verdade. Só desconfiou, desconfiou, desconfiou e, por fim, decidiu mandar a mulher e a criança para a Europa.


E daí surgiu a pergunta mais famosa da literatura brasileira, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis - aquele escritor autodidata, fundador da Academia Brasileira de Letras: Será que Capitu traiu mesmo ou não traiu?


E aqui fica a reflexão: na nossa sociedade, para o homem trair é a coisa mais simples do mundo. Agora, para a mulher, nem precisa trair para ter esse fim. Basta uma desconfiança, um olhar atravessado, e ela já é condenada, mandada para longe, apagada da história. Eu acho que ela foi injustiçada.


Mas por via das dúvidas, cuidado, minha gente. Capitu é bonita. Capitu é um pouco da essência perfumada e misteriosa que existe em toda alma feminina...

 

Jaqueline Machado.

 
 
 

Comentários


bottom of page