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Jaqueline Machado | Poemas

Epifania

Aos onze anos de idade,

sentada à porta da sala de casa,

tive minha primeira epifania.

Ao olhar para o céu,

uma sensação de vazio

tomou conta do meu ser.

Repentinamente,

indaguei-me: e se ao invés do tudo,

existisse o nada?

Se ao invés do princípio,

restasse apenas o fim?

Perguntas comuns para muita gente,

mas não para mim que nunca tinha ouvido

da boca de ninguém tais especulações.

E nunca havia sequer lido um livro.

Aquela sensação tragou-me a alma.

Me levou para um mundo desconhecido.

Mais tarde, devolveu-me à Terra,

inteiramente entorpecida.

Muito tempo depois

entendi o evento que experimentei,

e que por ninguém foi percebido:

era o primeiro chamado da minha missão.

- Daí, relembrando o dia da epifania,

num futuro distante nasceu o poema a seguir –

 

Eu e o mundo

Eu não tive infância...

Mas a Vida não tirou- me o desejo

de buscar, tocar, saber...

Desde muito menina,

o mistério da existência me fascina!

E de mim indaga sobre coisas que não posso ver.

Eu não tive infância...

 

Mas essa minha aliança com o universo,

despertou em mim um desejo confesso,

pelas artes do descobrir.

Meus olhos buscavam o céu.

Por detrás de sete véus,

uma voz perguntava:

e se ao invés do tudo, existisse o nada?

Se ao invés do princípio, restasse apenas o fim?

Eu não tive infância...

Mas todas as eras habitavam minha alma.

E uma senhora de sabedoria infinda,

com doçura me acalentava.

Não tive nada.

Por isso, tive tudo!

O mundo adentrou o meu ventre fecundo.

Emocionada, o amamentei

com as lágrimas do meu sofrer

e no meu colo, o embalei com as canções

que fazem o mundo girar.

 

Hoje, adulta, madura, torne-me uma pesquisadora

sobre as coisas da vida. E é a vida quem gosta de me ninar.


Jaqueline Machado.

 

 
 
 

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