Jaqueline Machado | Será Que o Defunto Realmente Morreu?
Amiga, vem cá! Tenho uma história para te contar que me deixou de queixo caído. Minha comadre, uma mulher culta, que adora uma boa leitura, me apresentou um defunto muito diferente: um homem que, depois de morto, resolveu levantar a voz e contar a própria história. Juro!
O nome dele é Brás Cubas, personagem do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. E sabe o que é mais curioso? Ele começa a narrativa justamente depois de morrer!
Brás nasceu com a faca e o queijo na mão. Vinha de uma família rica, cresceu cercado de privilégios, mimado e acostumado a fazer o que bem entendia. Desde pequeno, demonstrava sua arrogância e crueldade. Chegou a montar sobre as costas do escravizado Prudêncio, tratando-o como se fosse um cavalo. Uma cena que revela muito sobre os preconceitos e as relações de poder daquela sociedade.
Quando ficou adulto, vieram os romances, as desilusões e as conveniências. Marcela, que gostava muito mais do dinheiro dele do que propriamente dele; Virgília, por quem se apaixonou, mas que acabou se casando com outro homem; Eugênia, uma moça bonita, mas que ele desprezou por ter uma deficiência em uma das pernas; e Nhã-Loló, que representava uma possibilidade de casamento e ascensão social.

Brás gostava de falar bonito, tinha boas maneiras e sabia apresentar suas intenções com elegância. Mas, por trás daquela aparência, escondia egoísmo, vaidade e uma enorme preocupação consigo mesmo. Levava uma vida preguiçosa, cheia de privilégios e poucas realizações.
Mais tarde, teve uma ideia que considerava grandiosa: inventar um medicamento capaz de curar todos os males da humanidade. O famoso emplasto Brás Cubas! Mas, convenhamos, sua maior preocupação não era salvar vidas. Ele sonhava mesmo era com a fama, o reconhecimento e a glória.
No fim das contas, aos 64 anos, sem ter construído uma família, sem filhos e sem realizar seus grandes projetos, Brás Cubas morreu em consequência de uma pneumonia, após adoecer.
E é justamente por isso que essa história ganha um significado especial quando pensamos no Dia de Finados.
Afinal, será que precisamos esperar a morte para refletir sobre o valor da vida?
Mais importante do que visitar os mortos é aprender a valorizar quem ainda está ao nosso lado e as pequenas maravilhas da existência. É respeitar a natureza, cuidar dos animais, admirar o nascer do sol, sonhar olhando para a lua, abraçar quem amamos, tomar um bom café, saborear uma fruta, escutar música, assistir a um filme, brincar com as crianças e agradecer por mais um dia.
A vida acontece nas coisas simples, nos encontros, nos gestos de carinho e nas oportunidades que recebemos diariamente.
Brás Cubas escolheu contar sua história depois de morto. Eu prefiro contar a minha enquanto estou viva, aproveitando cada oportunidade de experimentar as maravilhas de ser humano.
Jaqueline Machado.
















Comentários