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Bruno Müller | Quem não resolve o presente não constrói o futuro

Volta e meia se debate a necessidade de discutir a Cachoeira do Sul dos próximos 20 anos. A reflexão é importante. Toda cidade precisa de planejamento, de visão e de objetivos de longo prazo. Mas existe uma pergunta que vem antes de qualquer outra: como construir o futuro sem resolver os problemas que impedem o presente?


Quando uma família compra uma casa antiga, a primeira preocupação não é construir uma piscina ou ampliar a garagem. Primeiro torna a casa habitável. Resolve as infiltrações, conserta as janelas, arruma a instalação elétrica, coloca as contas em dia, faz a limpeza e recupera aquilo que estava abandonado. Somente depois pensa em modernizar, ampliar e valorizar o patrimônio.


Com uma cidade acontece exatamente a mesma coisa.


A atual gestão assumiu o Município com um déficit orçamentário de aproximadamente R$ 60 milhões. Todos os meses, mais de R$ 5 milhões precisam ser destinados para cobrir o déficit previdenciário, além de valores de pagamentos de parcelamentos que gestões passadas nunca honraram em dia. Essa realidade limita investimentos e exige responsabilidade administrativa.


Ao mesmo tempo, a cidade convive com problemas estruturais que atravessaram governos de diferentes matizes políticas. Há mais de 75 anos o município não consegue realizar uma licitação definitiva para o transporte coletivo urbano. A Planta Genérica de Valores permanece desatualizada, comprometendo a justiça tributária e reduzindo a capacidade de arrecadação. O estacionamento rotativo segue sem implantação. O déficit previdenciário cresce ano após ano sem que reformas estruturantes sejam enfrentadas. Diversos prédios públicos ainda carecem de adequações de acessibilidade e de prevenção contra incêndios. As vias públicas seguem esburacadas, com galerias subterrâneas de décadas que prescidem de grande investimento para melhorias.


São problemas antigos, conhecidos e repetidamente adiados.


Por isso, causa estranheza ouvir que o Município deveria concentrar seus esforços apenas em discutir grandes projetos para o futuro, como se fosse possível ignorar os alicerces que sustentam qualquer processo de desenvolvimento.


Pensar o futuro é indispensável. Mas governar exige, antes de tudo, coragem para enfrentar o presente.


E enfrentar o presente também significa entregar resultados concretos.


Pela primeira vez, o Município adquiriu, com recursos próprios, duas ambulâncias, duas retroescavadeiras, um caminhão-caçamba e um prédio destinado à instalação de uma nova unidade de saúde. Também está ampliando a oferta de educação infantil com a abertura de duas novas escolas, criando mais vagas para centenas de crianças e suas famílias. São investimentos que fortalecem a capacidade de atendimento da administração e melhoram serviços essenciais para a população.


Isso não significa abandonar o planejamento de longo prazo. Pelo contrário. Significa criar as condições para que esse planejamento deixe de ser apenas um discurso e se transforme em realidade.


Também chama a atenção que muitos dos que hoje cobram uma visão de futuro ocuparam, durante décadas, posições de grande influência na cidade. Eram as vozes que pautavam o debate público, orientavam a opinião da comunidade e influenciavam decisões políticas. Se essas pautas eram tão urgentes, por que tantas delas permaneceram sem solução?


Durante anos, existiram investimentos públicos num único grupo para publicidade, concentrando prestígio e influência. Com a mudança desse modelo e o fim de uma relação que representava milhões de reais por mandato, parte desse protagonismo se perdeu. Desde então, as críticas passaram a ser constantes justamente contra uma gestão que optou por fazer o caminho menos vistoso, mas talvez o mais necessário: reorganizar as finanças, recuperar a capacidade de investimento e enfrentar problemas históricos que foram sucessivamente empurrados para o governo seguinte.


Não existe contradição entre fazer o básico e pensar grande.


Na verdade, uma coisa depende da outra.


Nenhuma cidade se torna moderna sem equilíbrio fiscal. Nenhum município atrai investimentos sem segurança financeira. Nenhum planejamento de longo prazo se sustenta quando as contas públicas estão desorganizadas e os problemas estruturais continuam sendo ignorados.


O futuro de Cachoeira do Sul deve, sim, ser debatido. Mas o primeiro passo para chegar até ele é ter a coragem de fazer aquilo que durante décadas quase ninguém quis fazer: colocar a casa em ordem com responsabilidade e coragem.


Porque quem não resolve o presente dificilmente conseguirá construir o futuro.


Bruno Müller

 
 
 

3 comentários


Edilson Moraes
Edilson Moraes
há 11 horas

Parabéns pelo texto . Foi muito informativo e verdadeiro!!

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Perfeito

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Perfeito.

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