top of page

De Cachoeira para a CASACOR: Arantxa Severo estreia em mostra de arquitetura em Florianópolis

há 8 minutos
5 min de leitura

A arquitetura como forma de transformar sentimentos em matéria. É a partir dessa ideia que a arquiteta Arantxa Severo, natural de Cachoeira do Sul e radicada em Florianópolis há oito anos, estreia na CASACOR Florianópolis 2026, uma das principais mostras de arquitetura, design e interiores do país.


Aos 32 anos, Arantxa integra o grupo de profissionais responsáveis pelos ambientes desta edição da mostra, que começa neste final de semana no antigo prédio da Faculdade Estácio, na SC-401, em Florianópolis. A programação segue até 8 de novembro.


Formada em 2018 pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Arantxa deixou Cachoeira aos 18 anos para cursar Arquitetura em Santa Cruz do Sul. Antes disso, passou por escolas como Barão do Rio Branco, Imaculada Conceição, João Neves da Fontoura e Ulbra São Pedro, onde concluiu o Ensino Médio.


Embora não tenha familiares atuando na arquitetura, ela conta que a escolha pela profissão aconteceu de maneira quase natural. Desde criança, já encontrava beleza e significado na maneira como a luz atravessava os ambientes, nas casas do bairro Rio Branco e nas ruas onde cresceu.


“Eu sempre optei estar perto, fazendo coisas ou de pessoas e tudo que me fizesse sentir, que aguçasse os meus sentidos, que me deixasse emocionada, que me encantasse”, relata.


Uma infância entre casas, histórias e imaginação

A relação de Arantxa com a arquitetura começou muito antes da faculdade. Durante a infância, quando ficava em casa enquanto os pais trabalhavam, ela observava a mudança da luz e das sombras no interior da residência e associava aquelas transformações ao horário em que os pais retornariam.


O bairro Rio Branco também se tornou parte dessa formação afetiva.

Ela conta que costumava caminhar pelas ruas, observar as casas e imaginar como eram seus interiores. Criava histórias para os moradores e tentava decifrar a organização dos ambientes.


“Eu observava as casas que eu mais gostava e ficava imaginando: ali era o quarto, ali era o banheiro, ali a sala. Eu ficava decifrando a casa dos outros, querendo entrar muitas vezes”, lembra.


A imaginação também foi alimentada pelas experiências na Biblioteca Pública e pelas histórias e atividades culturais conduzidas pela escritora cachoeirense Rosane Kempf, que teve papel importante em sua infância.


Para Arantxa, tudo isso ajudou a construir a relação que mantém hoje com a arquitetura. “Arquitetura, para mim, é uma poesia materializada da vida”, define.


De Cachoeira para Florianópolis

A mudança para Santa Cruz do Sul foi, segundo a arquiteta, uma etapa necessária para alcançar um objetivo que já existia desde cedo: viver perto do mar e da natureza.


Florianópolis se tornou o destino desejado e, após a graduação, Arantxa construiu na própria cidade o caminho profissional que pretendia seguir.

“Vir para cá era uma certeza para mim. Sempre foi meu objetivo, meu maior desejo, meu maior norteador de vida é estar em conexão direta com a natureza”, afirma.


Hoje, a capital catarinense é sua casa, mas os projetos já ultrapassam os limites de Santa Catarina, com trabalhos previstos também para São Paulo e Rio de Janeiro.


“Living Manifesto”: a fé transformada em arquitetura

Na CASACOR Florianópolis, Arantxa ocupa uma área de aproximadamente 80 metros quadrados. O ambiente foi batizado de “Living Manifesto”.


O tema nacional da edição de 2026 é “Mente e Coração”. A partir dele, a arquiteta decidiu não criar simplesmente um ambiente conceitual, mas construir a história de uma moradora fictícia e dar forma à sua personalidade por meio da arquitetura.


A personagem é uma escritora, poeta, apreciadora e colecionadora de arte. E tem uma ligação muito especial com Arantxa: é uma releitura de sua avó paterna, Marina, que ela não chegou a conhecer pessoalmente.


A avó era escritora e poeta, além de desenvolver trabalhos artísticos, como tapeçaria. Entre as lembranças preservadas pela família estão certificados e outros registros de sua trajetória. Há ainda um detalhe que emocionou especialmente Arantxa: dedicatórias de Mário Quintana destinadas à avó, reconhecendo sua produção como poeta.


“Eu sinto a minha ancestralidade muito viva. Então acabei utilizando ela como inspiração, fazendo uma releitura dela”, explica.


O resultado é uma residência contemporânea construída a partir da memória dessa personagem.


As raízes gaúchas dentro do ambiente

A ancestralidade também aparece nos materiais escolhidos para o projeto.

O piso dos 80 metros quadrados do ambiente utiliza rocha natural Pampa, de Lavras do Sul, no Rio Grande do Sul. A escolha está relacionada à história familiar da personagem criada por Arantxa: o pai era geólogo e trabalhava com o conhecimento das propriedades físicas da Terra.


A mãe, por sua vez, era antropóloga. Dessa combinação entre ciência, conhecimento, humanidade e arte nasceu a personalidade da moradora imaginada pela arquiteta.


Há ainda uma obra produzida especialmente para o ambiente pelo artista Lunardelli, a partir de um pedido de Arantxa para representar um horizonte.

A escolha também remete diretamente a Cachoeira do Sul.


“Eu ficava parada, no meio da cidade, mirando o horizonte”, conta.

Assim, elementos da infância, da família e das paisagens gaúchas acabaram incorporados ao projeto apresentado em Florianópolis.


“Quero que as pessoas sintam que estão entrando na casa de alguém”

Mais do que apresentar um ambiente visualmente impactante, Arantxa deseja provocar uma sensação nos visitantes.


“Minha maior intenção para essa mostra é que as pessoas que cheguem lá possam sentir que estão entrando na casa de alguém. E que tudo que ali está esteja vivo, tenha alma, tenha verdade, tenha presença, tenha sentimento”, afirma.


A arquiteta quer que o visitante consiga perceber a personalidade de Marina por meio dos objetos, materiais, cores, obras de arte e da própria disposição dos espaços.


“Que quem entre consiga reconhecê-la, senti-la, através do que está ali.”


O desafio de transformar liberdade em criação

A estreia também trouxe um desafio inesperado. Com liberdade para criar o ambiente, Arantxa inicialmente teve dificuldade justamente para decidir o que fazer.


“A liberdade me aprisionou”, resume.


O desbloqueio aconteceu quando ela voltou para si mesma e começou a refletir sobre o que “Mente e Coração” significava para ela.


Foi a partir dessa introspecção que o projeto começou a ganhar forma.

“Eu tive que voltar ao início. Foi uma introspecção profunda. Aí consegui soltar o projeto, desenhar o projeto. Esse foi o meu maior desafio.”


Agora, com o ambiente materializado, a sensação é descrita por ela como algo ainda mais profundo.

“Eu sinto como a minha fé materializada. Tudo que eu manifestei está lá, está exposto.”


Uma cachoeirense que leva suas origens consigo

Mesmo vivendo em Florianópolis, Arantxa afirma que Cachoeira do Sul continua sendo um lugar de reconexão.


É para lá que retorna quando deseja caminhar pelas ruas onde cresceu, reencontrar as paisagens da infância e revisitar as próprias raízes.

“Cachoeira vai ser sempre um lugar meu de resgate, de volta, de reconexão. Minha ancestralidade é daí. Minha origem é daí. Então minhas raízes são daí.”


A estreia na CASACOR representa, dessa forma, mais do que uma conquista profissional. É também a materialização de uma trajetória construída entre a imaginação da menina que percorria as ruas do bairro Rio Branco e a arquiteta que hoje transforma memória, natureza, arte e sentimento em espaços.


Para Arantxa, a arquitetura também é uma forma de servir ao outro: compreender como cada pessoa deseja viver e transformar sua identidade em um espaço que faça sentido para ela.


“Se eu consigo te ler, se consigo dar forma à tua identidade, ao teu ser, logo eu me realizo.”


E é justamente essa visão que ela leva para sua primeira CASACOR: um ambiente que, antes de ser apenas visto, pretende ser sentido.


 
 
 

Comentários


bottom of page