Jaqueline Machado | O Visitante da Meia-Noite
Era meia-noite. Eu ali, cansado, cabeça cheia, tentando ler um livro velho para esquecer a tristeza de ter perdido minha amada Lenora.
De repente, TOC, TOC na porta.
Pensei: deve ser o vento.
Mesmo assim, perguntei:— Quem está aí?
Nenhuma resposta. Só silêncio.
Voltei para a cadeira, coração acelerado. Aí, de novo: TOC, TOC na janela.
Abri. Entrou um corvo. Preto, com cara de dono do mundo. Voou e pousou acima da porta, no busto da deusa Atena.

Eu, para quebrar o clima estranho que pairava no ar, perguntei, brincando:— E aí, seu corvo, qual é seu nome lá do outro lado?
E o corvo respondeu:— NUNCA MAIS.
Eu arrepiei, mas continuei. Porque, quando a gente está triste e sozinho, conversa com passarinho.
Perguntei se eu ia esquecer a dor que sentia. E ele, enfático, falou:— NUNCA MAIS.
Quis saber se ia rever minha Lenora um dia. Ele repetiu:— NUNCA MAIS.
E, quanto mais ele repetia NUNCA MAIS, mais eu sentia que aquele bicho não era um bicho qualquer. Era a minha própria sombra, pousada ali, me lembrando que tem dor que não vai embora...
Então, triste, embriagado e arrasado, aceitei minha triste sina: chorar por Lenora e não sorrir...
NUNCA MAIS. NUNCA MAIS...
Jaqueline Machado.
















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