Jaqueline Machado | Vítima ou traidora?
Até onde você iria para suprir um vazio? A Emma, aquela madame do livro que foi parar na polícia - porque disseram que o autor Flaubert era imoral - pois bem, ela tinha beleza, saúde e um casamento supostamente dos sonhos para a sociedade da sua época. Seu marido era Charles Bovary, um médico dedicado, calmo, um homem bom. Ele deu a ela uma rotina sossegada em meio à natureza, uma casa confortável. Mesmo assim, ela não se sentia feliz. Ela queria viver uma realidade cheia de acontecimentos, como nos livros que adorava ler.
o tempo, foi se entediando e, não resistindo à necessidade de sair da rotina e se aventurar, passou a ter amantes: Léon Dupuis e Rodolphe Boulanger. Sim. Ela era considerada uma senhora honrada, a madame Bovary delicada no seio da sociedade, mas para os que iam aos poucos descobrindo suas escapadinhas, Emma era tida como uma "biscate, traidor e sem vergonha”.

O tédio que a consumia era tanto que, além das aventuras extraconjugais, passou a ter uma necessidade compulsiva por compras: cortinas, móveis, vestidos e joias. Até que se afundou em dívidas. Nenhum de seus ex-amantes quiseram ajudar a coitada. Sem saída, decidiu pôr fim à própria existência. Mas quem pode julgar essa mulher?
Ela tinha um espírito livre, mas não podia viver sua essência, porque para a mulher de bem só cabia um papel: dona de casa, recatada, sem vontades e guardiã do lar. É claro que suas atitudes eram erradas, mas ela estava vivendo algo que não lhe pertencia. Portanto, antes mesmo de trair o marido, ela traiu a si mesma.
A própria essência, num mundo em que ninguém percebeu sua dor. E os homens que a usaram não fizeram absolutamente nada para salvar sua vida. Se aproveitaram do seu desespero e depois a descartaram. É caro leitor, esse é o retrato mais puro do machismo: os homens podem tudo, as mulheres não podem nada. Eles usam, julgam e vão embora, e é a mulher quem fica sozinha e com a má fama.
( Esta crônica é uma homenagem a Madame Bovary, um dos clássicos mais famosos do mundo, escrito em 1857 pelo autor Gustave Flaubert. A história é recontada em uma linguagem popular, porque o clássico tem que fazer parte da vida de todas as pessoas.)
Madalena Literária.
Porque só o conhecimento liberta.
Jaqueline Machado
















Comentários